Capítulo III
Entram em cena os vilões
“Oignez vilain, il vouspoindra; poignez vilain, il vous oindra”
“Ungi o vilão, pungir-vos-á ; pungi o vilão, ungir-vos-á”
Rabelais (1490-1553)
A moça loura entra no elevador, todos os homens reparam, algumas mulheres na rua também... é praticamente impossível não reparar . Ela sabe disso, desde que seus dons afloraram no início da puberdade, independente do quanto se sinta bonita no dia ou não, para quem ela quiser que seja, a moça se torna irresistivelmente atraente.
Ela gosta de brincar com isso , no início usava suas habilidades na escola ou nas festas para provocar os casais, inflamar brigas...óbvio que sempre os homens das outras mulheres davam razão e protegiam ela, indo contra suas próprias namoradas.
Em instantes ela chega ao andar requisitado, na assembléia legislativa os elevadores ainda são os mesmos da época que foram construídos, antigos, com a necessidade de um funcionário permanentemente comandando as viagens. Uma secretária em uma pequena mesa a recebe, logo após sair.
_ Bom dia! O Sr. Bezerra já está aguardando a senhorita.Vou anuncia-la! _ Respondeu _ Senhor Bezerra? A senhorita Martha já chegou...claro, agora mesmo senhor. Tenha a bondade, por favor!
_ Obrigada. _ A moça entra no gabinete e é recebida por um cavalheiro em seus trinta e cinco anos,bem apessoado, acompanhado de uma outra moça morena, de cabelos bem compridos e pele muito clara, com idade próxima aos seus vinte e poucos anos
_ Martha! Sente-se! Eu e Pallas a estávamos falando justamente em você agora!
_ Jonas! Pallas! Estou muito atrasada? Espero que não.
_ Não, Martha. Sente-se quero contar pra vocês dois o que aconteceu ontem.Vocês não vão acreditar... _ Falou a moça de cabelos muito compridos e negros, ela pronunciava o português com certa dificuldade com um sotaque que devia ser grego.
Pallas começou seu relato. Primeiro explicando que havia enviado no dia anterior dois “servos” pra interceptar em definitivo o rapaz que havia se recusado em entrar para o grupo do qual eles faziam parte...
_ De alguma forma eles foram destruídos, Jonas...falo sério! Mesmo que o tal Charles pudesse dar cabo de duas das minhas criaturas, mesmo após isso, eu convoquei mais dois...que foram também destruídos! _ Falou. Impressionada.
_ Você mantém uma espécie de elo mental entre elas? _ Perguntou Martha.
_ Não...elas adquirem certa independência, uma vez invocadas...mas posso sentir se algo der muito errado, no mesmo instante aonde eu estiver...
Jonas continuava em silêncio, aquelas duas mulheres eram ambas, seu braço direito e esquerdo. Suas habilidades únicas já haviam lhe rendido muitos pontos, muitas vitórias. E agora, com sua “sociedade” sendo estruturada. Elas seriam pilares fortes para aquisição de novos membros ou até mesmo, como no caso relatado agora, eliminação de convocados não interessados em se juntar a eles
Já conhecia ambas a um bom tempo e sabia que os talentos mágicos de Pallas eram sem par....resolveu quebrar seu silêncio.
_ Foi ele? Foi Charles quem os destruiu?
_ Talvez...é o que tudo indica. _ Respondeu Pallas.
_ Vocês querem que eu descubra? A mim ele não resistiria...
_ Martha, eu pedi que Pallas tomasse a frente nesse pequeno problema, pois queria usar o cara como um exemplo para quem mais imaginasse não participar do nosso esquema das coisas...não queria que você o trouxesse para o nosso lado, influenciado por seus poderes.
_ Você poderia lhe pedir que se matasse, o que acha?
_ Tem certeza? Está certa que não quer mais tirar uma casquinha do cara, Pallas? Se eu tomar a frente disso, posso não falhar, como você...
_ As duas são muito importantes aqui. Se pudessem deixar de lado essa competição pequena, eu iria adorar. As habilidades do rapaz eram muito valiosas pra nós. Só aceitei dar cabo dele, pois não seria possível mantê-lo indefinidamente sobre controle por aqui, mesmo com seu “empurrãozinho” Martha, conhecimento é poder e no caso desse Charles então, conhecimento é extremamente perigoso. Acabe com ele.
_ Assassinato...
_ Não temos outra opção Martha. E Pallas está emocionalmente ligada nesse caso...talvez por isso tenha falhado.
_ Eu não falhei Jonas! Já disse! Uma vez conjuradas, as criaturas fazem o que eu quero, mas não sou responsável por qualquer fator externo que não tenha sido antecipado.
_ Bom...qual de vocês duas poderia me ligar com o Groove?
Martha olha para um grande aquário atrás de Jonas Bezerra e por um momento acredita ter visto, dentro da água a imagem de uma velhinha que a olhava com olhar de desapontamento.
No dia anterior, à noite, na casa de Daniel Dominic...
_ Caramba! Está chovendo mulher gostosa no meu chuveiro!
_ Sorte sua, meu caro Daniel! Ainda não tive esse tipo de chuva lá em casa! – Brinca Fabiano.
_ Daniel, o que está havendo aqui? Quem é essa moça que está tomando banho contigo?
_ Eu não estou tomando banho com ela, vó. Eu nem conheço ela...
_ Mas eu não entendo...você não gosta de mulher?...
_ Não é nada disso! Dá licença vó! Você! – apontando pra Sâmara_ Toma essa toalha e vem pro quarto com a gente... _ Respondeu Daniel, chateado.
No quarto, Samara, agora devidamente enxugada, começou seu relato. Ela explicou que tinha recebido a convocação da então famosa: Velha da água. Que ao cair na piscina onde treina, emergiu em um lugar diferente, composto unicamente de água, para todos os lados, em todas as direções e lá travou diálogo com essa entidade.
Para Vicente estava claro que essa moça era uma das pessoas, assim como Guilla, que eles deviam juntar forças pra impedir o tal mal que iria surgir nas suas vidas. Daniel trouxe algumas roupas para ela, que imediatamente vestiu. Ela falou que vinha de porto Alegre e estava no Rio vivendo separada de sua família, para as competições de nado do Pan americano a alguns dias.Explicou que também tinha talentos secretos, que ninguém, a não ser seus pais sabiam. Os outros jovens contaram o que tinham passado naquele dia para a moça. Fabiano perguntou:
_ Qual é o recado para nós? Podemos ver essa tal “velha”, Samara?
_ Acho que não...ou talvez vocês tenham perdido a oportunidade ao não atender os primeiros convites...sei lá...bom. Ela disse que nós tínhamos que resgatar um objeto que estava submerso no oceano. Ela me mostrou aonde era na minha cabeça. Mas não sei o que seria ao certo...seria uma espécie de presente para nos ajudar.
_ Acho que poderíamos ver isso... _ Falou Vicente.
_ Mas não necessariamente mais hoje, Vicente. Está tarde e temos vidas pra voltar, cara._ Falou Fabiano.
_ Tudo bem...eu acho que não vou esquecer aonde está, se vir o lugar vou saber...
_ Amanhã vemos isso, tudo bem gente? Pode deixar Vicente, estou contigo nessa! Não precisa ficar preocupado, vamos ver juntos no que vai dar, amiguinho! _ Falou Fabiano.
_ Í! Olha lá! Também estou nessa! _ Esbravejou Daniel.
_ Podem contar comigo. _ Falou Guilherme.
_ Tudo bem, mas vamos embora...quero ir pra casa... _ Falou Fátima.
Trocaram contatos.Fabiano despediu-se dos demais, tomou sua moto e foi embora em direção do Jardim Botânico, Daniel levou de carro os demais em casa.
Fabiano chegou rápido em seu bairro, naquela hora da noite, a transito praticamente não existia de Copacabana para o Jardim Botânico. Antes de subir na moto, ligou para a namorada e contou sobre o que aconteceu na praia, durante a partida. Contou do acidente de carro, da morte do colega do time rival...amenizou o que pôde. Na verdade a pequena nisei com quem namorava a algum tempo já sabia de suas habilidades, procurava com ela compartilhar sempre o que acontecia em seu dia, na sua vida, cantava-lhe tudo.Ou quase tudo...
Ao desacelerar a moto, notou que uma figura já conhecida sua, o aguardava na frente do portão de seu prédio. Bom, esse segredo ele ainda fazia questão de manter. Eu me aproximei de Fabiano, este retirou o capacete e fez menção de me comprimentar.
_ Qual é, moleque? Tudo certinho? _ Falou Fabiano
_ Por enquanto tudo bem...
_ Está aí a muito tempo?
_ Não. Cheguei agora. Lembra que já te disse que...
_ Que nada disso é novidade pra você, eu sei. Imaginei , vindo para casa, que talvez você já soubesse do que ia acontecer hoje, não é?
_ Eu sabia que mais cedo ou mais tarde a guerra deixaria de ser secreta pra você e os outros.
_ Eu os conheci hoje... _ Fabiano falou como se pensasse alto.
_ Conheceu meu “outro pai” também, com certeza.
_ Conheci.
_ Bom, chegou a hora que eu já havia lhe falado.
Fátima chegou em casa, nossa! Que experiência ela teve hoje! Parece que sua vida ficou de ponta a cabeça. Tomou uma boa ducha. Não antes de se certificar de que ninguém iria aparecer debaixo do fluxo de água do chuveiro. Ao voltar para o quarto, olhou em sua bolsa e reparou que havia mensagens não atendidas em seu celular. Sua amiga Roberta lhe ligou várias vezes.
Pensou se deveria contar para ela sobre o que havia lhe acontecido. Teria que abrir o jogo também quanto aos seus poderes. Ninguém sabia sobre eles. Invejou por um instante Samara e Fabiano, pois lembrou-se que ambos disseram que seus pais sabiam de seus talentos especiais. Mas ela não conseguia se abrir dessa forma, na verdade de forma alguma. Sua família não sabia de nada e ela queria que assim continuasse.
Amanhã ela ligaria pra Roberta, hoje o dia tinha sido muito cansativo. Antes de se deitar, foi ao espelho. Por um momento ficou apenas olhando seu próprio reflexo, depois experimentou se concentrar e pronto! Desaparecera! Podia se ver, mais não havia mais
reflexo no espelho! Nunca antes tinha feito isso por vontade própria, todas as vezes que ficara invisível, fora contra sua vontade, sempre o efeito era alheio ao seu desejo.
Talvez o fato de Vicente ter feito uma “ligação direta” na sua cabeça para seus poderes serem usados por ele, tenha liberado aspectos que agora tornariam mais fácil controlar o seu poder. Talvez tudo isso fosse algo natural, devido ao fato dela ter usado bastante eles hoje. Dispersa em pensamentos, lembrou-se que continuava invisível, teve medo nesse momento...e se não pudesse voltar ao “normal”? Concentrou-se...pronto! Tudo certo. Foi dormir.
Daniel deixou Samara por último em casa. Queria conhecer um pouco mais sobre a gauchinha. Afinal de contas, não era todo dia que aparecia uma moça tão bonita dentro de seu banheiro, do nada. A moça contou um pouco sobre sua vida, seus sonhos e esperanças. Daniel se identificava muito com a conversa que estava tendo com ela.
Ele contou a ela sobre o medo que sentia ao usar seus poderes. Contou que para poder emitir a energia necessária para causar algum efeito físico, tinha que drenar de algo vivo. Ele retirava a energia de coisas vivas pra se abastecer e que uma vez podendo dispor de suas rajadas. Elas ram devastadoras, desintegravam absolutamente tudo o que tocavam. Seu medo maior era matar. Não contava claro, minotauros assassinos invisíveis. Mas pessoas de verdade. Não sabia o que faria se algum dia ferisse de verdade alguém...
Os jovens se identificavam em muito mais coisas, ambos curtiam Aerosmith. Combinaram de ir juntos ver o show no final do mês em São Paulo. Daniel falou de sua banda.
Samara falou que apesar de ser atleta, o que ela queria fazer mesmo era pintar . Contou que de vez em quando ensaiava alguns quadros e gravuras. Daniel riu e contou que escrevia! Não só letras de música, mas também pequenos contos literários. Samara falava da prima, do amor, amizade e cumplicidade que existia entre ambas. Ela falou da saudade da parente que morava na capital Paulista. Daniel achou muito bonito, tudo o que a moça falava. Uma grande amizade surgia naquele momento.
Fabiano queria encurtar o papo. Não podia dizer que estava cansado para a pessoa com quem conversava, pois além de ser uma grande mentira (ele nunca sentiu cansaço em toda a sua vida) Eu conhecia suas habilidades até melhor do que ele.Falei então:
_ Sei que você está agoniado e quer ir embora .
_ Tenho que ligar pra minha namorada. Não estive com ela hoje, por conta de tudo que aconteceu.
_ O mais importante de tudo é lembra-lo. Amanhã você terá que acordar cedo.
_ Amanhã? O que tem amanhã?
_ Não posso me envolver diretamente, você sabe. Amanhã você precisa salvar meu pai biológico.
Fim da primeira parte.
Capítulo III Segunda parte
Charles acordou cedo , tomou seu café, trocou de roupa. E foi correr no aterro do Flamengo. Durante todo tempo que desempenhava essas atividades corriqueiras, procurava manter a mente focada em um por um dos aspectos mais simples do seu ritual diário.
Por exemplo. Enquanto escovava os dentes ou simplesmente amarrava o cadarço do sapato. Limitava a atividade mental apenas a concentração de tais tarefas, sem desviar o pensamento. Como os orientais normalmente costumam fazer, disciplinando a mente cada vez mais. Ao entrar no elevador riu. Lembrou-se de ontem e imaginou como os outros deveriam imagina-lo depois de tudo
Ficaram sem saber realmente quais seriam seus reais poderes ou se teria esses poderes. Deveriam crer que ele se tratava de um bruto qualquer...alguém que não raciocinava. Gostava de ver quando as pessoas o subestimavam. Seu prazer era esfregar na cara delas suas reais capacidades. “Eles devem achar que dependo da minha espada pra tudo”.
Correu um bom pedaço de chão. Chegou na pista onde gostava de se exercitar, malhar e praticar seu alongamento.O dia estava lindo. Veio num bom ritmo desde o aterro até a Urca. Mais tarde iria ter que dar aula. Será que aqueles ridículos vão querer achar esse tal “presente”da tal “velha da água”? Se for hoje, não contem com ele, muita coisa precisa ser adiantada na sua vida, não é possível ficar brincando de “X-men” por aí.
As criaturas... sabia que podiam aparecer atrás dele novamente. Deveria contar para eles sobre o fato de estar sendo caçado nas ruas a um tempo por essas criaturas? Talvez depois da derrota que sofreram ontem, não mais apareçam para ele...sabia também quem as estava mandando. Teria que contar isso também? Mas que saco! Charles nunca foi um cara de “grupos”...a não ser o dele. Mas isso é outra estória.
_ Posso me aquecer aqui, junto com você? _ Perguntou uma moça loura muito bonita.
_ Claro...fica a vontade... _ Respondeu _ pensou: “O Daniel achou uma mulher no chuveiro ontem, agora isso...quem precisa de velha ridícula da água???”.Ela nem ao menos tinha feito a convocação pra ele mesmo.
Vicente se preparou para tentar achar o sujeito. Muita coisa ele poderia falar sobre o que estava acontecendo. Toda essa estória sobre uma “guerra secreta”, sociedades misteriosas, outros seres com poderes como eles...tudo isso Charles sabia um pouco ou razoavelmente bem. Pelo menos o suficiente para lhe dar aula.
Bom...ele deixou um número de celular. Que não estava atendendo. Podia ser um número errado. Pois, após toda pose e atitude, porque ele deixaria um número certo de contato? Vicente sabia que Charles era peça chave pra tentar solucionar os mistérios que tinha travado contato.E ele adorava solucionar mistérios!
Podia estar errado, mas aquelas criaturas eram feitas ou trazidas por magia, não pareciam ser obra de “poderes” para-normais. E por que Charles podia vê-las? Aquela espada que carregava...parecia saber lutar muito bem. Era o único deles que realmente lutava...tudo isso tinha que ser averiguado.
Já que Charles queria dificultar a vida de Vicente, que dificultasse. Ele iria acha-lo hoje. Agora mesmo de manhã. E estando só os dois, ele teria que contar a verdade.
Uma vez tinha tido acesso a seus padrões mentais, pois bem. Ele iria encontrar de qualquer forma agora o cara. Num momento em que o guerreiro não estava percebendo, tinha ido ao banheiro na casa de Daniel. Vicente tinha pego “emprestado” uma chave pequena de cadeado, retirada das inúmeras que estavam no chaveiro no bolso do casaco de Charles. Talvez fosse fazer falta para ele agora...que tal entregar?
“Psicometria”, uma das habilidades mais simples de um psi. Consistia a grosso modo no fato de através do contato físico com um objeto de uma pessoa, ver imagens e fatos relacionados a ela. Lugares onde essa pessoa já esteve com o objeto em posse, algumas palavras faladas e ouvidas, imagens...
Vicente viu algumas coisas...engraçado: a chave era do cadeado da bicicleta...”tomara que ele até agora não tenha querido dar uma volta!”...viu sua casa, como era por dentro...objetos religiosos em seu quarto...uma moça bonita de longos cabelos negros...falava engraçado!...Ah! Vicente acabou vendo o lugar preferido de Charles!
Durante essa manhã, na obra onde estava supervisionando. Guilherme, ou Guilla como gostaria de ser chamado pelos amigos, ficava várias vezes aéreo. A memória do que tinha acontecido ontem não saía de seus pensamentos. Finalmente tinha encontrado outros como ele. Talvez fosse a hora de aceitar o convite feito por aquele homem idoso, que morava na serra, perto da casa de seus pais em Teresópolis...
Ele de alguma forma tinha visto potencial em Guilla, e se apresentado como um “velho sábio”, que praticava “artes antigas”. Seria magia negra? Tinha que de uma forma ou de outra pagar pra ver. Se tudo o que ouviu dos outros fora verdade, precisava se aperfeiçoar. Suas habilidades não deixavam de ser uma espécie de “alquimia”, como Vicente enfatizou para ele, na casa de Daniel.
Gostara muito de todos, tinha conseguido se dar relativamente bem até com Charles! As meninas também eram legais. Muito louco como Samara tinha aparecido! O caras: Daniel, Fabiano e Vicente eram “maneiros”. Sentira confiança em todos e admirava as iniciativas de Vicente em assumir uma atitude agressiva em relação do que eles passariam mais pra frente...ou não! Tudo poderia se tratar de um grande engano.
No momento no entanto, o grupo poderia totalmente contar com ele e o que ele poderia fazer.
As ondas batiam sobre as rochas na pista “Gago Coutinho”na praia Vermelha, na Urca. Da altura das pedras, podia se ver a água surpreendente limpa do Oceano Atlântico...mar aberto.
Charles estava em pé, de frente pra moça loura que conhecera a pouco.
_ Você entendeu Charles? Se você me ama mesmo, eu quero que você se jogue daqui de cima, lá embaixo, prova pra mim o seu amor!
_ Você é uma vaca, sabia?
_ Sabia! Mas na India nós somos cultuadas, sabia? No entanto, pode me chamar de “Abelha-rainha”,é assim que muita gente me conhece, eu prefiro, meu zangãozinho!!!
O rapaz tinha domínio sobre sua fala, mas seu corpo, cada célula sua, queria fazer o que a “Abelha-rainha” mandava. Os ferormônios de Martha provocavam isso, ele não mais tinha controle de suas ações. Nem lógica em seus pensamentos.
Martha pegou um celular que trazia consigo e ligou:
_ Jonas.Eu já dei a ordem, não tem como ele desobedecer, se dessa vez sobreviver, não é por causa minha. Também não vou ficar aqui pra ver, pede pro seu “leãozinho de chácara”, ficar de olho e se certificar depois que eu sair que ele passou dessa pra melhor. Sim, ele está aqui perto, cuidando da minha segurança, vou embora. _ Desliga.
A moça faz sinal pra um outro rapaz que a observa a uma certa distância e dá um beijo em Charles.
_ Adeus, gatinho! Até que você é gostosinho,não fica bravo comigo, não, tá?
_ Claro! Reza pra eu morrer mesmo. Se não eu vou atrás de você e desse cara que veio contigo!
_ Não tem como, gato. Uma vez que você cair na água, quero que você me prove que me ama, não fazendo nada pra sobreviver, se a queda não te matar, nem o choque com o mar, morre afogado pra mim, tá? Conta até cem e enquanto isso, pensa na sua vida, ok? Beijo _ Martha sai.
Vicente de longe identificou Charles em pé, prestes a dar um mergulho no mar...mas como? Ao olhar pra baixo, repara que tem muitas pedras e é muito alto a distância até as ondas lá embaixo batendo.
Ele corre até o colega, quando um outro cara detém seu trajeto já próximo a Charles com um empurrão.
_ Parado aí, amigo, onde você pensa que vai? _ fala o rapaz.
_ Charles, o que você vai fazer? _ Pergunta com um grito Vicente.
_ O que você acha, cara? Vou dar um mergulhinho e me arrebentar lá embaixo!
_ Você vai morrer, cara!
_ Agora você captou a idéia! E por favor, para de falar comigo, que aí eu perco a contagem! Vou ter que começar do zero de novo, por sua causa!
_ O que é que está acontecendo...eu não entendo...
_ Vai embora daqui, amigo...eu já te falei, a coisa vai ficar feia pra você se continuar aqui. _ Falou o rapaz desconhecido.
_ Até eu saber o que está acontecendo aqui, você não vai dar mergulho nenhum, Charles. _ Vicente com um gesto afasta Charles bruscamente do precipício, telecineticamente.
_ Ah!!! Temos um psicocinético aqui ao nosso lado! Sabe que eu costumo mastigar “gente psi” no meu desjejum?...e acabei de lembrar! Não tomei ainda café da manhã hoje!
Como um raio, o rapaz desconhecido, pulou um distância inacreditável a acertou um pontapé devastador no queixo de Vicente. Esse cai imediatamente no chão cuspindo sangue.O agressor não pareceu satisfeito com o resultado.
_ Vicente! _ Gritou Charles.
_ Ué??? Ainda vivo? Eu dei um golpe pra arrancar a sua cabeça fora!!! _ Falou o rapaz.
_ Desculpe, véio..._ Levantando_ Nós “psi”somos cheios de surpresas...
O rapaz numa velocidade incrível chuta Vicente enquanto tenta novamente com um soco poderoso destroçar sua cabeça.
_ Vicente! Você não vai reagir??? Aliás...perdi novamente a conta...vou ter que começar do zero. _ Charles volta pro final da pedra.
_ Agüenta firme, Charles. Vou te tirar daí...
_ Sei, sei...se você sobreviver, que não é o que está parecendo...”vinte e três, vinte e ...”
_ Ele não pode reagir, nem que queira! Faz parte dos meus poderes ser totalmente imune a qualquer energia mental! _ Declara sorrindo o agressor_ Só não entendo como não consigo quebrar seu pescoço, seu merda!!!
_ Desculpe se te desaponto, amigo...sabe...tenho um campo de força psiônico permanente...não dá pra me machucar fácil com ataques físicos...e também não tem como eu desligar...eu não sei... _ Vicente ri enquanto cospe mais sangue da boca.
_ Mas eu vou ter matar de qualquer forma, mesmo que demore mais !!!
Na verdade, a cada golpe, cada agressão, o estranho ficava mais irritado e conseqüentemente os ataques saíam mais poderosos, não era que Vicente não quisesse se defender, ele não podia. A única coisa que o mantinha vivo ainda era sua aura psiônica, que desagradava enormemente seu oponente. Pois sua força, agilidade e velocidade eram impressionantes e nunca antes tivera tanta dificuldade pra acabar uma luta tão fácil como essa.
Por outro lado, Vicente não conseguia se concentrar, sua sorte era que seu “campo”era ativado inconscientemente, alheio a sua vontade. Pois o rapaz era muito pra ele naquele ponto. Dessa forma, não podia mais ver Charles e impedir que pulasse, pois estava tentando sobreviver.
Realmente seu oponente era imune a sua telecinesia ou a qualquer outra forma de ataque mental. Lembrava, da forma como se movia, pulava e atacava-lhe, um macaco ou um gato. Só que muito mais impressionante. Também não havia nada por perto que pudesse ser arremessado contra ele...Só lhe restava um pensamento...podia explodi-lo com a mente...sabia que podia...mas faria? Só com o empurrão que deu em Charles pra afasta-lo do precipício quase quebrou o rapaz ao meio, seus poderes não eram confiáveis.
_ Bom, oitenta e dois, oitenta e três...Acho que vou ter que ir Vicente, pelo menos morro e não vejo essa covardia!Vai dar uma de Madre Tereza??? Acaba com esse merda, Vicente! Pelo menos morro um pouco em paz! _ Gritou Charles.
_ Cala boca! _ Gritou o rapaz desconhecido enquanto com um golpe quebrava o braço de Vicente.
A dor foi insuportável para Vicente, o próprio agressor estava ficando exausto, tinha empregado muita força pra atravessar as defesas mentais no corpo do garoto, mas agora estava chegando perto de acabar com ele! Charles gritou:
_ Vicente, seu ridículo! Ele vai te matar! Reage feito homem!!!
_ Você acha que eu estou tentando fazer o quê? E você, por que não vem aqui me dar uma mãozinha? O lutador aqui é você e não eu!!!
_ Ele está fazendo de você carne de hambúrguer! E se eu pudesse ia aí, mas uma loura vagabunda me mandou pular daqui e me deixar morrer, sabe...
_ E você sempre faz o que te mandam? _ Perguntou Vicente enquanto era novamente acertado pela velocidade e força de seu oponente sem chance de esquiva.
_ Não! Só quando essas “louras vagabundas” tem poderes de persuasão...e presta atenção na sua briga, cara!
Vicente consegue, aproveitando a distração do seu agressor, com o diálogo que travava aos berros com Charles, acertar um murro no seu nariz, desorientando-o por poucos instantes, na surpresa do feito.
_ Seu merda!Agora eu acabo de vez contigo!Ninguém nunca me acertou! _ Esbravejou o rapaz.
Charles chega na contagem “cem” e pula da pedra em direção as ondas que batiam com força nos rochedos lá embaixo.
Com estupidez Vicente é empurrado ao chão, seu campo de força não mais estava funcionando, devido ao cansaço físico que se encontrava. O outro rapaz monta em cima dele e com as duas mãos preparava para quebrar seu pescoço, realizado.
_ Valeu, cara! Valeu mesmo! Apesar de tudo, ninguém nunca tinha me dado o trabalho chatinho de ter que gastar tanto tempo e energia pra acabar com alguém, como você! Bato palma pra ti! _ Ri enquanto se prepara pra quebrar o pescoço de Vicente, que cuspindo mais sangue sorri...
_ Você endoideceu de vez, depois de levar tanta porrada, né? Ta rindo do quê???
Nessa hora, o rapaz é retirado de cima de Vicente, suspenso pelo pescoço por mãos fortes que esmagavam sua faringe e laringe.Tentou balbuciar algo:
_ Uhhhhhhhh....quem???_ Enquanto se contorcia de dor ainda suspenso.
_ Olá, Groove! Fala aí? Como você tem passado? Conheceu meu irmãozinho, não é?
Agora, ainda suspenso, mas virado de encontro ao novo participante da luta. Groove fala surpreso:
_ @#$%^&*&^%$#!!!!!!!
_ Como é? Eu não estou conseguindo ouvir direito...vou meneirar um pouco a força, tá?
_ Fabiano! O que você está fazendo aqui??? _ Falou ainda tentando retirar as mãos que o prendiam pela garganta.
_ Não adianta, Groove, Te conheço de tempos e meu corpo sabe muito bem como tem que ser pra lidar contigo, meu chapa, lembra? Nos conhecemos de velhos carnavais!
_ Não se meta nisso!!!
_ Já me meti, cara, estou protegendo esse cara agora, pede desculpa!
_ O quê?!?!?!
_ Pede desculpa pra ele agora! Ou então...
_ Calma Fabiano, eu estou bem, a gente tem que ajudar o Charles..._ Falou Vicente todo moído, enquanto tentava se levantar.
_ Tá vendo esse moleque? É um garoto legal! Se ele quisesse, tinha explodido você, cara...bom, tenho que ajuda-lo agora a achar um colega nosso... _ Fabiano arremessa Groove muito longe, contra a arrebentação e os rochedos.
_ Amigo seu? _ Pergunta Vicente ainda bastante tonto.
_ Não. Amigo seu? _ Começam a rir.
Charles enquanto cai, lembra das últimas palavras de Martha, se sobreviver, não poderá fazer nada pra emergir e se salvar. Todo seu corpo arde de desejo por ela, mesmo depois de tudo, que droga de ferormônios malditos! O pior, sua mente está lúcida o tempo todo...pensa: “Dessa vez eu vou ficar de bigode!”.
Ao se aproximar do mar, ouve uma voz: “Charles Alfredo...venha para a água!.”
_ Ponte que partiu!!! A velha ainda por cima, sabe meu nome todo!
Continua...
quinta-feira, 26 de abril de 2007
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