quarta-feira, 11 de abril de 2007

Guerra Secreta: O acidente

GUERRA SECRETA
Capítulo I

Congruência_ s.f. Proporção adequada entre uma coisa e o fim a que tende

“Eu faço o que tem que ser feito...”

Tudo o que Guto queria era uma boa dose. Havia um bar onde ele tinha conta, podia beber fiado durante todo o mês e no final acertar o quanto devia. Levantou-se, a manhã estava espetacular, seu corpo mal sentia as conseqüências dos seus quarenta anos de farras e bebedeira, para ele era normal. Ao chegar na pia para se lavar, ouviu uma voz feminina e madura, no instante em que abriu a torneira, que dizia: “Vá para a água...”
Por reflexo, recuou assustado, a voz insistentemente repetiu e repetiu: “Vá para a água, Gustavo...vá para a água...”
O calor era insuportável, o Rio costuma ser assim nos meses de fevereiro principalmente. A população reclamava muito, ainda mais depois de um mês de dezembro chuvoso e pitorescamente frio que desacostumara a população . “Queria tirar a camisa!”_ pensava Vicente, absorto em imagens e músicas, ao mesmo tempo em que tentava prestar atenção no jogo que acontecia na sua frente, na praia de Botafogo. Pro rapaz ficar sem blusa na rua era o mesmo que estar nu. A agressividade inerente a partida era a ele interessante...”não, não é com esse tipo de coisa que eu tenho que me sintonizar”_ Exteriorizar emoções muito fortes sempre lhe foi negado, coisas desagradáveis aconteciam caso ele se permitisse soltar-se totalmente.
“Não vai dar tempo!”_ na verdade nunca o tempo era folgado ou generoso com Daniel. A culpa era sua, tudo na vida era feito pra ser vivido, tanta coisa pra se ver e aprender! Tanta gente pra conhecer e curtir. Regras...ele cumpria, mas não com a inflexibilidade que eram impostas...”será que rolaria ainda hoje de curtir uma partidinha na praia?”_ afinal de contas o ensaio já estava mais do que adiantado mesmo...e se ele desse uma escapadinha?Ás vezes, coisas muito loucas passavam em sua cabeça que não haviam amigos que tivessem condição de entender...se ele pudesse falar o que ele via nos outros ou o que podia fazer...Não! É melhor guardar esse segredo apenas pra si.
Ela desejava _“Chegar em casa...não ver mais ninguém!”_ era tudo o que Fátima queria naquele momento, seria tão bom pra variar ter um pouquinho de paz. O ônibus lotado, o calor...Ah! O bendito calor!Ainda bem que a condução tinha ar condicionado.Pois a praia de Botafogo nessa hora era um inferno. Tudo estava errado, e a habilidade que ela vinha cada vez mais e sem intenção desenvolvendo só piorava sua situação, haviam vezes em que ela achava que ia pirar realmente, caso tudo que acontecia com ela já não fosse um delírio...quem dera...delírios podem ser tratados com vontade, remédios e terapia...já o que ela estava desenvolvendo em sua vida, não tinha possibilidade de remédio.
“Quase lá!”_ Não, ele não podia se deixar parar por causa de medo de expor seu segredo, ele já deveria estar acostumado, apesar de não ser algo conscientemente determinado por ele mesmo, se superar no que fazia, era um vício, digamos que positivo, ainda mais agora, que distância entre ele e a trave não poderia impedi-lo de escapar de dois rivais e fazer seu tão desejado ponto. A areia da praia atrapalhava a propulsão, ao mesmo tempo que até facilitava o fato de certos impactos não serem tão desgastantes pro seu corpo. “Que seja! Que façam e aconteçam! Eu supero!”_ Fabiano sabia o que estava dizendo ao afirmar isso. Poucas pessoas sabiam de seus pequenos “talentos” e assim deveria tudo continuar.Competir era sua “droga”.

Números, cálculos, teoremas...ele sabia que tudo isso faria parte de seu cotidiano ao sair da faculdade, mas até mesmo num sábado a tarde? Mesmo no ônibus, indo pra casa, seu trabalho era revisado, daqui a dois dias esse projeto deve estar pronto, “Eu sou novo pra tanta responsabilidade! Isso não é justo!” Se Guilherme fosse outro, como ele queria por um instante ser, jogaria tudo pra cima! Mas não era, a vida sempre deu muita responsabilidade pra ele, pois sabia que mesmo nas suas últimas forças ele daria conta de qualquer problema, aliás, resolvê-los parecia ser seu segundo “poder especial”.
O rádio ajudava Vicente a se desligar de si e dos outros, mantinha-o numa espécie de estado contemplativo e quase meditativo...pro seu equilíbrio psicológico era uma muleta, nada a ser usado em demasiada freqüência, corria o risco de ficar dependente do radinho. Lidar abertamente consigo e com o que vinha dos outros era o que ele tinha que em algum momento aprender definitivamente. Quem sabe se ele participasse do time e deixasse vazar um pouco de sua agressividade reprimida? Mas e se algo acontecesse? E se ele liberasse mesmo que por um instante uma parcela de sua maldição...não. não era como maldição que seus talentos deveriam ser vistos, nem por ele, nem por ninguém.
Fugiu, era sábado! Estava escrito nas estrelas que Daniel Dominic não ficaria nem mais um segundo naquele estúdio frio e estéril. Pegou seu carro e agora, já próximo da via expressa da praia do flamengo, Copacabana , seu destino, se aproximava cada vez mais, “Cara, vou dar um mergulho! Não quero nem saber se a água está própria ou imprópria!”- falava em voz alta, enquanto curtia o som que tocava em seu Mp3...pra ele, a melhor banda do mundo.Mentira...a segunda melhor, Aerosmith era a melhor!
O tráfico estava descomplicado , fluindo naturalmente em direção a zona sul da cidade, apesar do som alto, dos vidros fechados e do ar condicionado a mil, o rapaz prestava atenção no fluxo de carros a sua frente e no caminho que tinha que percorrer até chegar na praia. Por instantes julgou ter visto um rapaz segurando uma espada japonesa em pé, na faixa de grama que sapara as pistas de subida e descida de carros ao longo da enseada.Que coisa louca pensou, cada maluco nessa cidade...
Um impacto do nada! O carro bateu! Ou melhor, algo bateu contra seu carro,o vidro dianteiro foi feito em pedaços, Daniel perdeu o controle da direção e por reflexo e instinto jogou o veiculo pra cima do calçadão da praia. Mesmo antes de saber o que estava acontecendo realmente, lhe veio o pensamento de que ia se ferrar quando o pessoal da sua casa soubesse...quando desligou o motor e saiu imediatamente nada por perto parecia ter sido a causa da batida...
A partida foi paralisada, claro, um carro que corria na pista expressa que contorna a praia, se descontrola, arrebenta a proteção de isolamento da calçada e pára já praticamente na faixa de areia. Alguns companheiros de Fabiano automaticamente correm pra ver o que podia ser feito pelo motorista, que já havia abandonado o carro a essa altura, tonteado.
Vicente de onde estava podia ver claramente toda frente do automóvel perdida. “Cara! Esse cara bateu em quê? Num elefante ?”. Nada, não havia pista do que o carro de Daniel havia se chocado. Isso era visível pra qualquer um, Invisível mesmo era algo mais...também invisível para os olhos de Vicente como para os demais, mas não para seu outro sentido...mesmo com os fones de ouvido tocando música alta em sua cabeça...
Quem estava na linha 455, teve que aceitar o fato de que ia chegar um pouco mais tarde esse dia em casa.O motorista havia parado naquele instante pra ver o estrago que o carro havia sofrido, ele era testemunha de que o sedam chocou-se com algo “invisível”. Invisível aos olhos de Guilherme, mas não invisíveis aos olhos de Fátima!O terror tomou conta da morena.

_ Galera! Vamos voltar com a partida! _ gritou Fabiano, já perdendo a paciência.

_ Cara, você está bem? _ um dos jogadores do time rival correu até o carro e perguntou a Daniel.

_ Estou, acho que estou... _ respondeu

_ Saiam daí agora! Saiam de perto do carro! - Gritou Fátima da janela do ônibus, desesperada.

Nesse mesmo momento Fabiano percebeu que o rapaz que a muito estava sentado assistindo o seu jogo havia também se levantado como os outros, só que algo estava diferente com ele ,pois sua face estava transtornada, não como a menina do ônibus, como se sentisse dor. Fabiano foi até ele.

_ Eu já falei pra vocês saírem daí! - Gritou novamente Fátima _ Saiam agora!

Daniel que podia, assim como todos, ouvir o que a moça gritava da janela do ônibus ia responder uma segunda pergunta do jogador que tinha vindo em seu auxílio primeiramente, quando viu o corpo do rapaz ser rasgado praticamente ao meio bem na sua frente.Por um agressor invisível.
Guilherme vomitou ao ver a cena. Isso é muita loucura! Muita loucura até mesmo pros parâmetros de Daniel que agora se via paralisado, em estado de choque.Fabiano já não sabia mais o que pensar, perguntar se Vicente, o cara ao seu lado, estava se sentindo bem.
não era mais prioridade.
Vicente não chegou a ser abordado por Fabiano, esse correu em direção de seus colegas e do rapaz que estava dirigindo o carro. Daniel subitamente foi suspenso no ar, como se algo ou alguém o estivesse levantando. Fátima correu pra fora do ônibus, já que ela era a única que podia ver a criatura, talvez por causa de suas habilidades... pensou que talvez pudesse fazer alguma coisa, mesmo que indiretamente. Vicente percebeu que era também sua vez de agir.
As pessoas ao redor, os transeuntes, os passageiros dos veículos parados em torno da orla, todos estavam horrorizados com o espetáculo macabro que se desnudava aos seus olhos. Todos...menos uma pessoa. Um rapaz louro de uma certa distância, assistia a tudo friamente, com indiferença, ao perceber isso, não se tratou de curiosidade leviana mas Vicente sem intenção conectou-se ao estranho. Era em sua direção que ele deveria correr.
Daniel queria sobreviver, não era por nada não, mas terminar igual ao atleta não estava em seus planos imediatos. Se algo possivelmente invisível o retirou do chão, ele também poderia ser tocado e era isso que ele tinha de conseguir fazer pra se libertar.
Fabiano aproximou-se de Daniel e instantaneamente foi envicerado na frente de todos,seu sangue jorrou bastante em cima de Daniel , ele caiu no chão praticamente inerte. todos gritaram ao redor. Daniel no desespero tocou o que o sustentava, parecia ser uma pessoa ou criatura invisível.
Fátima correndo de um lado para o outro, tentava convencer as pessoas paradas na frente do grande espetáculo surreal a se afastarem pro mais longe possível, pra seu azar, seu estado nervoso alterado liberou suas habilidades, impossibilitando que quem quer que seja notasse sua presença.

Vicente aproximou-se do estranho rapaz.

_ Você tem que fazer alguma coisa! _ falou.

_ Fazer o quê? Com quem você pensa que está falando? _ respondeu o estranho

_ Eu sei quem você é, eu sei que você causou isso...indiretamente. _ disse Vicente

_ Cara! Sai de perto de mim, você é maluco ou o quê? _ enquanto respondia, o rapaz começava a dar as costas pra ir embora. Vicente segurou-o pelo braço. A reação do rapaz foi agressiva e imediata.

_ Me solta, seu louco!

_ Não Charles, você vai terminar o que começou, você precisa salvar todo mundo!. Falou Vicente.

_ Como é que você sabe o meu nome? Quem é você?

_ Caramba ! Isso importa! Vai lá agora!. O desespero de todos ao redor já afetava como nunca a mente de Vicente e o que o garoto mais temia era que isso fizesse dele uma ameaça muito pior do que a atual... Charles correu em direção de Daniel. Esse agora já tocando seu agressor com ambas as mãos e se concentrando conseguiu provocar a primeira reação da criatura. Um grito de dor que pôde ser ouvido por todos ao redor.

Guilherme viu que não tinha mais jeito, tinha que tentar ajudar, nem que fosse escondido e indiretamente. Fátima notou que Vicente olhava em sua direção como se pudesse reparar sua presença. Ela correu até ele e perguntou:

_ Você pode me ver?

_ Na verdade não...eu sei que você está aqui de outra forma... respondeu Vicente.

_ Como isso é possível? Ninguém poderia me ver...eu quando estou muito nervosa...

_ Você não está realmente invisível, você sabe, não é? , disse

_ Não?

_ Seu talento funciona de outra forma. Eu não consigo nem falar contigo ou ouvir sua voz.

_ Como não! Eu estou te ouvindo e você a mim. Disse Fátima.

_ Fátima, nós não estamos conversando de forma convencional...

Antes que Fátima pudesse perceber finalmente que Vicente sabia seu nome sem ela ter dito, Daniel foi largado no chão, nesse mesmo momento ele se afastou o máximo que podia e se preparou pra tomar uma importante decisão...usar ou não de força letal seus poderes na frente de todos e acabar com sua vida como ele a conhecia. Suas mãos começaram a brilhar com um efeito esverdeado.
Fátima gritou novamente ao perceber que de dentro d’ água, dois mais agressores emergiam em direção a praia. Vicente ao tentar imaginar com o talento de Fátima funcionava realmente teve uma idéia que poderia resolver a situação a curto prazo e ele teria que fazer agora ou nunca. Charles puxou de dentro de seu casaco o que parecia inesperado de ser adivinhado que possuia guardado consigo o tempo todo, uma espada japonesa e foi com tudo, gritando como um louco na direção de Daniel e do quase morto Fabiano.Esse no chão não sentia dor alguma, nunca na sua vida havia sentido, o rapaz na verdade estava mais preocupado com outra coisa, imaginava como iria explicar pra todos ao seu redor se de repente, levantasse dali inteiro e transformado só Deus sabe com que aparência...
Guilherme, parado , agora em frente da confusão, pensava o que poderia fazer.Sem aviso no entanto o surpreendente aconteceu. Tudo e todos ao redor da dramática cena desapareceram!...
Pois Vicente concluíra que aquela era a congruência perfeita de pessoas, que podiam fazer algo a respeito daquele caos, então... fez o que tinha que fazer.

Continua...



Capítulo I Parte 2

Conflito _ s.m. embate; luta; antagonismo; colisão; oposição; conjuntura.

“Luz é tudo!”


@#$%^&*, foi mais ou menos isso que Fabiano falou quando ao levantar do chão, viu a real aparência de quem tinha o envicerado. Tinha, pois agora Fabiano estava muito melhor, o corte não mais existia e a aparência de sua pele lembrava alguma coisa... Lembrava o material das garras da criatura que agora aparecia bem diante de seus olhos, dos seus olhos, dos de Daniel, que continuava a uma certa distância com as mãos brilhantes e dos de Vicente.
Charles e Fátima o viam agora da mesma forma que sempre o viram, desde o início. Horrendo, meio humanóide, meio touro, como uma espécie de minotauro vitaminado. Suas mãos eram longas e as unhas pareciam feitas de um material que se assemelhava a algo metálico. Era feio, se também eram criaturas de Deus, não foi com o intuito de agradar aos
olhos dos homens que eles foram imaginados.
Fabiano imaginava que a partir daquele momento que ele levantou “melhor”, essas garras não poderiam mais lhe dar dor de cabeça, foi pra cima da criatura com tudo, de tal forma e iniciativa que por um instante o próprio Charles parou pra apreciar a cena. A criatura no início se mostrou confusa, quando não mais conseguia fazer Fabiano em pedaços, depois essa confusão piorou quando após o primeiro golpe, o rapaz parecia no mínimo desenvolver força equivalente a dela. A preocupação com os curiosos que pudessem o identificar já havia desaparecido. Aliás...tirando essas pessoas, tudo o mais parecia ter desaparecido, era como se os curiosos não os pudessem mais ver ali. E não podiam mesmo.Vicente comandava os poderes de Fátima agora
Daniel precisava de mais energia. Ele sabia que poderia sozinho parar a carnificina da criatura, no entanto o preço a pagar era alto. Correu até uma árvore e tocou seu tronco...nada aconteceu? Mas como não? Alguma coisa estava errada, teria perdido seus poderes? Fabiano continuava trocando golpes com a criatura, para sua surpresa, garras começavam a aflorar de suas mãos, muito semelhantes com as do monstro. Estavam lutando de igual para igual, acontece que o rapaz não possuía, nem de longe a ferocidade necessária pra terminar de vez com aquilo.
Uma voz dentro de sua cabeça foi ouvida: “Imobilize como puder esse monstro, Fabiano”.Bom, foi o que ele fez. Fabiano enquanto tentava conter a criatura se perguntou quem havia falado em sua cabeça, de longe Vicente acenou para ele com um sorriso.Charles, agora ao seu lado falou.

_ Você sabe que isso é um erro, não? Além do mais, você não deveria estar induzindo eles a tomarem parte nisso.

_ Eu não estou fazendo nada de errado, na verdade, não mais errado do que você já tenha feito até aqui. Respondeu Vicente

_ O que você quer dizer com isso?

_ Que foram os seus atos, anteriores ao acidente com o carro, que desencadearam tudo isso, desculpe se estou tentando consertar toda essa merda.

De longe Fabiano gritou enquanto mantinha a fera sub julgada com dificuldade.

_ Será que alguém, sei lá, o alguém que falou comigo, na minha cabeça agora a pouco pode me dizer o que eu devo fazer!!!

_ Segura as pontas só mais um pouquinho! _ Gritou Vicente_ Olha cara! É ! Você aí perto da árvore, vai lá! Vai lá na criatura e faz de novo o que você fez com ele antes!

_ Eu? Você está falando comigo? _ Perguntou Daniel

_ Claro que é com você! Só tem nós cinco aqui!

_ Fala baixo comigo! - Respondeu Daniel.

_ Seis! Essa belezinha aqui tá me dando muito trabalho aqui, por sinal! _ Falou Fabiano.

_ Vá lá agora! Gritou Vicente.

_ Tá bom, tá bom...Mas se ele me cortar eu não levanto todo serelepe que nem o grandão aí...

Daniel se aproximou do monstro, preso nos braços de Fabiano, que a essa altura, realmente parecia mais alto e forte do que antes, como se seu corpo tivesse mudado o suficiente para já conseguir manter a besta segura. Ele ficou impressionada com as habilidades de Fabiano, mas mais impressionante era aquela criatura que antes ele só vira em livros de mitologia e estórias de fábulas gregas
E então tocou seu corpo. Rapidamente a criatura foi definhando até ser consumida por inteiro, Daniel agora brilhava num tom esverdeado, como uma aura de energia por todo seu corpo.Nada mais havia ali da criatura.

_ Caramba! O que foi que você fez? _ perguntou Fabiano.

_ Eu acho que...desintegrei a coisa... _ respondeu Daniel.

_ E essa luz verde em volta de você?

_ Bom, eu acho...

_ Será que dava pra gente voltar pra onde nós estávamos? _ Falou Charles.

_ Voltar pra onde?Como assim? _ Falou Daniel.

_ Você não está vendo que não está realmente onde estava? - Disse Charles.

_ É verdade...cadê todo mundo? _ Retrucou Fabiano.

_ Nós estamos no mesmo lugar de antes, só que em uma dimensão paralela. _disse Vicente.

_ Foi você que falou na minha cabeça! Você fez isso também?_ perguntou Fabiano.

_ Não. Foi ela aqui.

_ Eu? Como eu? _ Perguntou espantada Fátima.

_ Eu usei os seus poderes pra nos trazer pra cá e impedir que mais gente se ferisse. _ Respondeu Vicente.

_ Você usou os meus poderes? Que poderes? _ Falou Fátima, confusa.

_ Você não fica invisível como imagina, não é assim que acontece com você...

_ Ótimo cara! Você pode também usar os meus poderes depois pra abrir latas de ervilha, tá? Mas agora tira a gente daqui. _ Respondeu Charles.

_ Como assim você fez o que fez? _ Novamente falou Fátima, atônita.

_ Telepatia? _ Respondeu Daniel.

_ Ótimo! Você não é nem um pouco burro, hein? Come capim de bobeira! _ Falou Charles.

_ Foi assim que você falou na minha mente...você lê mentes? _ Perguntou Fabiano.

_ Não...eu projeto minha vontade...

_ Em outras palavras senhoras e senhores...ele controla as pessoas!_ Falou com sarcasmo Charles.

_ Opa! Você me controlou? _ Disse Daniel.

_ Eu apenas induzi que o grandão ali contivesse a criatura...

_ Continua... e também que a moreninha aqui nos trouxesse pra cá. _ Falou Charles

_ Você me usou! _ falou Fátima

_ Não! Eu usei suas habilidades, ativei elas, já que você não fazia idéia de como fazer uso delas de forma consciente. _ Se defendeu Vicente.

_ Aliás...cara...você vai continuar assim? E desse tamanho? _ Perguntou Daniel pra Fabiano.

_ Eu?...eu acho que isso vai passar...espero..vai passar, não é, cara?

_ Como eu vou saber..._ Respondeu Vicente.

_ Ué, “Mestre dos Magos”, você não sabia usar os poderes dela? Deve saber os dele. _ Disse Charles.

_ Não é assim, o dela foi um palpite, eu experimentei ligar as habilidades dela ao máximo, pra nos isolar do público, depois concluí o que já havia intuído...de que ela não ficava invisível, mas sim, que ela se transportava pra outra dimensão... _ Falou Vicente.

_ Então, estamos em outra dimensão! Que irado!_ Exclamou Daniel.

_ Você vai continuar brilhando assim? _perguntou Fátima.

_ Eu vou ter que despejar essa força que eu absorvi em algum lugar...

_ Que não seja na enseada de Botafogo...essa, dessa dimensão está limpinha. Espera pra quando voltarmos pra nossa. _ Mais uma vez sarcasticamente Charles.

_ É mesmo, temos que voltar...mas eu não sei como fazer... - Disse Fátima.

_ Ele aqui te controla de novo! - Falou Charles.

_ Chega! Já disse que não foi um controle!

_ Foi uma manipulação do bem, não é? _ Falou Daniel rindo.

_ É só você se acalmar, tenta relaxar, que a gente volta... _ Disse Vicente.

_ Bom...se você quiser..eu te ajudo a relaxar... _ Falou Daniel.

_ Moleque, sai de perto! _ Fabiano empurra Daniel brincando.

_ Que legal! Já estamos nos dando bem! Que pequena família...podemos ir? _ Disse Charles.

_ É mesmo! Quando viemos pra cá, eu vi mais duas criaturas como essas, saindo da água...

_ Da enseada, Fátima? - perguntou Vicente.

_ Foi.

_ Claro, elas atacam sempre em pares. _ Respondeu Charles.

_ Como é que você sabe disso tudo? _ Perguntou Fabiano.

_ Porque ele pode vê-las naturalmente, o tempo todo em todo lugar, não é Charles? _ falou Vicente enquanto Charles ficava sem graça diante dos demais.

_ Você podia ver esses caras e não fez nada, não disse nada? _ Falou exaltado Daniel.

_ Ele podia sim. _Por alguma razão que ainda vou descobrir... _ Disse Vicente.

_ Não se atreva a tentar tirar o que for, da minha cabeça! _ Ameaçou Charles enquanto apontava a espada na direção de Vicente.

_ Ótimo! Agora o último samurai , vai espetar a única pessoa que sabe usar os poderes da menina, pra nos tirar daqui!!! _ Exclamou Daniel.

_ Saia de perto dele! _ Ameaçou Fabiano. - por que você não usou essa espada na criatura que só você via e que estava tentando matar todo mundo?

_ Como assim todo mundo? Só “eu” aqui! - Exclamou Daniel.

_ Você podia ter feito algo! _ Falou Fátima.

_ Conta pra eles Charles.

_ Cala a boca, cara! _ Ameaçou apontando novamente a espada para Vicente.

_ Já te disse...pra trás! _ Defendeu Fabiano.

_ Bom...já vi tudo, o “samurai X”aqui vai cortar o cara ali...o cara ali vai levantar inteiro depois e cheio de pose e isso não vai acabar mais...vamos embora? _ Disse Daniel.

_ Poderíamos aproveitar a transformação do grandão e a carga do nosso amigo aqui e acabarmos com os dois que ficaram pra trás. _ Disse Vicente.

_ Você está se amarrando nisso tudo, não é? _ Perguntou contrariado Charles _ Responda!

_ Se esses caras só andam em duplas...e nós até agora contamos três...cadê o quarto?

_ O quarto, o Charles aqui matou, não é? E estava perseguindo o segundo quando esse fugindo, chocou-se contra o carro dele. _ Respondeu Vicente para Fabiano.

_ Ah! Que ótimo! O carro! Agora eu lembrei! Minha avó vai me matar! _ Disse Daniel - Não morri na mão desse minotauro maluco, pra morrer na mão da velha!

_ Você não ia fazer nada pra nos ajudar? _ perguntou Fabiano para Charles.

_ Já não era mais problema meu...

_ Aliás, prazer pra todo mundo...meu nome é Daniel...Cara, você vai desenvolver chifres também? _ Perguntou pra Fabiano.

_ O meu é Fátima...

_ O meu é Fabiano, mas você já sabia nossos nomes, não?

_ Certas informações mais superficiais são fáceis de saber das pessoas, desculpe... _ Respondeu Vicente.


Houve um breve momento de confraternização entre os jovens, não compartilhado com muita naturalidade por Charles.
Daniel o mais jovem era também o mais falante, espontâneo e elétrico. Fátima a mais retraída, uma antítese entre delicadeza e força, quase enigmática em suas intenções, observava tudo o tempo todo sem muito demonstrar. Vicente o mais afetuoso e agregador, falava com certa sabedoria, sem tom de voz era sempre complacente e terno, tinha o dom de inspirar e Fabiano, também bastante caloroso e o mais seguro e brincalhão, procurava criar intimidade e palhaçadas com todos ao redor, como uma forma de proteção, de não atrair atenção pra si mesmo ...Os olhos de Charles a todos acompanhava, brilhavam com bastante inteligência, ele era o mais entristecido em alma, que se defendia o tempo todo com uma falsa máscara de indiferença e amargura.

_ Vamos voltar...acho que agora é comigo. _ Disse Fátima.

_ Isso, é só pensar: “Não há lugar como lar! Não há lugar como o lar!” _ Brincou Daniel.

_ Estou doidinho pra dar umas porradas nesses feiosos pra vingar a morte do cara que jogava contra mim! _ Retrucou Fabiano _ Você pode nos ajudar, não é? _ Pra Vicente

_ Tanto posso como vou.

_ Não contem comigo, estou fora. _ Falou Charles.

_ Você já estava fora desde o princípio! Disse Vicente com raiva.

_ Eu não tenho obrigação de dar uma de super-herói, porque você quer que eu dê. Quer experimentar se você consegue me manipular pra ajudar, será que você consegue me forçar???

_ Eu não quero que você ajude manipulado... _ Respondeu Vicente pra Charles com determinação.

_ Muito bem então. _ Respondeu desafiante Charles.

_ Caraca, véio! Você nasceu escroto assim ou fez cursinho? _ Brincou Daniel

_ Eu só quero ir embora quando a gente voltar! É meu direito!

_ Tudo bem! Era também seu direito ficar olhando enquanto aquele monstro cortou em dois o meu colega de jogo, não é? _ Falou irado Fabiano indo em direção de Charles.

_ Olha, eu não quero confusão, tá bem? Eu não posse responder pelos meus atos se ...

_ Vai fazer o quê? Dar espadada em todo mundo?Em mim? Será que consegue me machucar? _ perguntou Fabiano.

_ Eu não preciso da espada pra fazer o que eu tiver que fazer com quem quer que seja...

_ Parou! Vamos embora daqui! _ Falou Fátima _ Eu não agüento mais essa situação...

A moça se concentra, um pequeno calafrio passa por sua coluna e em instantes os cinco jovens estão de volta a sua realidade habitual.
Mas tudo está diferente. Pra começa, quando eles “saíram” dali, era dia, sol forte no céu limpo. Agora era noite a lua cheia pairava no horizonte e a cidade estava diferente...toda apagado, como se não houvesse energia elétrica. Não haviam carros na rua trafegando, nem tampouco uma viva alma...O carro de Daniel continuava ali, destruído no gramado do calçadão. De repente , surge vindo da direção dos prédios uma infinidade de criaturas semelhantes com a que os jovens haviam derrotado, de várias direções e se aproximando velozmente. Os minotauros corriam como se para ataca-los.
Daniel foi o primeiro a agir, aproveitou a energia desmaterializada do primeiro agressor que derrotara e disparou uma rajada verde fortíssima no agressor mais próximo do grupo,destruindo-o completamente a vista de todos, logo depois mais criaturas se aproximaram e Daniel continuou desintegrando uma por uma que chegasse perto deles, os colegas gritavam de êxtase, incentivando Daniel a cada disparo certeiro e definitivo. Até que sua aura verde já não aparecia mais e suas mãos não mais emitiam energia...
O garoto desintegrara pelo menos quinze criaturas, mas dezenas de outras continuavam a se aproximar ferozmente do inusitado grupo.

_ Galera...fudeu! _ Falou Daniel

Foi a vez de Vicente assumir a dianteira da formação.Concentrando-se ele esmigalhava os ossos e estruturas cartilaginosas de alguns, explodia as artérias e o que parecia ser o coração de outros, destroçava os mais atrás do “enxame” , mais de oitenta monstros foram obliterados... até que caiu esgotado pelo chão, Fabiano agacho-se, levantou o rapaz em seu ombro e olhando zombeteiro para Charles, disse:

_ Ainda quer entrar “numa”com o “carinha” aqui? É com esse moleque que eu vou me colar daqui pra frente!

Charles contrariado apenas retrucou com um grunhido a ironia de Fabiano, desembanhou a espada e assumiu posição de defesa, Fabiano entregou Vicente aos cuidados de Fátima, colocou-os atrás de si e lado a lado com Charles se posicionou ao redor dos colegas caídos.

_ Vamos morrer como guerreiros, até o último de nós! _ Gritou em descontrole Charles.

_ Eu não quero morrer! Isso aqui não é um set de 300!!! _ Daniel gritou, enquanto Fátima entrava em estado de choque. _ Vamos voltar para aquele lugar que você nos levou, Fátima! _ A menina nada respondia.

Em questão de segundos, umas seiscentas criaturas já os rodeavam , avançando. Fabiano imaginava que talvez a isso não pudesse se transformar a ponto de sobreviver e mesmo que sobrevivesse era o fim de seus novos amigos, em algum momento, lembrou-se de sua família e de sua namorada, onde estariam eles numa hora dessas, será que mortos?
Uma pequena garoa começou a cair sobre a praia, que com o tempo foi se intensificando até tornar-se uma chuva fina e persistente.
Charles também pensava em sua família, em como tinha começado sua guerra pessoal e secreta contra essas criaturas por causa dela a algum tempo...
Quando o fim parecia inevitável. Um clarão cegante e poderosíssimo de luz branca eclodiu diante deles, por instantes a visão de todos foi ofuscada e logo ao poderem novamente enxergar, viram em pé diante deles um homem de olhos azuis, bem mais velho que eles, com um cigarro na boca e um copo de conhaque na outra. Vinha do corpo dele a luz, a mesma luz que parecia ter expulsado os “minotauros” da praia. Ele os observa por instantes e com um sotaque do sul do país, falou sorrindo:

_ Luz é tudo!

Continua...

4 comentários:

Unknown disse...

AMEI!

Anônimo disse...

Só podia ter saido da cabecinha Vaughan...adorei tb! Tô louca para descobrir meus poderes. Participação do Gibá foi tudo nesse episodio...ele deveria ler.rsrsrsrrs!!!! Vou esperar anciosamente pelo próximo capitulo.

Daniela Torgersen disse...

Parabéns pelo blog amigo!!
Saudades de vc, como sempre um ótimo contador de estória, qualquer uma fica mágica nas suas mão, vc tem talento pra da, vender, emprestar e ainda sobra!!
Ainda mais se passando no Rio que a gente conhece e ama!!
Me sinto em casa!!
Bjs!!

Petrif disse...

ahuahuahah... o Giba chegou e detonou todo mundo com sua luz! ahuahuauha... muito bom! Como é que eu faço pra jogar isso aí com vocês? É virtual? vai ser sempre virtual?